ArtigosEduardo Vieira

Precisamos conhecer nossos heróis

118Leituras
Foto: Eduardo Vieira / Arquivo Pessoal

Ontem foi aniversário de nascimento de Alberto Santos Dumont, pai da aviação mundial. Tal fato me foi lembrado pelo amigo Arnaldo Barbalho, do ITA. E me fez lembrar de um ocorrido curioso.

Esses dias estava me dirigindo a um almoço delicioso com a minha filhota caçula. No Uber, paramos num sinal e uma mulher com um casal de crianças foi atravessar a rua. Antes de chegar à calçada do sinal abriu e o carro que estava na última fila começou a andar devagarinho, mesmo vendo a família ainda atravessando.

Pus-me a pensar na indignidade daquele gesto. Um avanço daqueles se constituia num claríssimo atestado de estupidez e barbárie. Mas o imbecil o fez, mesmo assim. O que causaria isso?

Concluí que um elemento fundamental de tal imbecilidade era a baixíssima auto-estima do cidadão. Provavelmente massacrado por décadas de pregações mentirosas como que fizemos feio na Guerra do Paraguai, fomos ridicularizados na segunda guerra mundial e que nosso exército não tem munição para um dia de combate, entre outras idiotices, o cidadão absorveu para si, por mimetismo subordinado, tal demência qualitativa e moral. A partir daí toda estupidez se entende.

É preciso, pois, desfazer esse pacote gigantesco de mentiras grotescas. E vou aproveitar essa data para falar um pouco a vida desse grande e generoso herói, o Pai da Aviação, essa capacidade humana de desafiar a natureza, que tanto me encanta. Cheguei a aprender a pilotar monomotores por conta dessa paixão, chegando a fazer como passageiro um vôo acrobático que me fez perceber como seria ter um elefante sentado no meu colo. Mas essa é outra história.

Santos Dumont foi um sujeito apaixonado pelo vôo. E sua fama se criou pela invenção do balão dirigível. Sabe os “Zepellins” alemães que tanta gente conhece? Pois é, todos derivados do gênio de Santos Dumont.

Tudo começou na corte de Portugal, ora pois, onde um padre (ciência e religião, observem) brasileiro fez uma pequena demonstração de um balão dentro dos salões do rei João V. Seu nome era Bartolomeu de Gusmão e essas façanha foi realizada em 1709 para assombro dos presentes. A partir daí a coisa ganhou momento (do ponto de vista de engenharia) e chegou até os irmãos Montgolfier e seus balões belíssimos. Mas que voavam à mercê do vento.

Santos Dumont começou a trabalhar na criação de um veículo que obedecesse aos comandos de seu piloto, e conseguiu fazer isso em público, contornando a Torre Eiffel para ganhar uma grande soma de um prêmio que distribuiu entre seus mecânicos.

Mas o mais bacana dessa é que o brasileiro passou a usar seus variados balões para passear por Paris, e a bordo das suas trapizongas foi a diversos eventos chiques, onde os lordes e ladies se libertavam das amarras da etiqueta para correr a segurar o cabo que o dirigível arrastava para estabilidade. Após segurar o balão, a nata da bufava e puxava o incrível brasileiro para uma altura adequada, de onde ele pulava lépido para o chão e os incontáveis aplausos e questionamentos de todos.

Leia também

Era como se o Super-homem morasse em Paris e passasse voando de vez em quando para deleite de todos. Em 1900 esse brasileiro de Minas Gerais era uma das pessoas mais famosas do planeta, sem dúvida alguma.

A admiração de todos era enorme. Era complicado para um piloto controlar o tempo enquanto tinha as mãos ocupadas nos controles de suas máquinas, e quando Santos Dumont reclamou disso a seu amigo Louis Cartier este tratou de desenhar um relógio para amarrar no pulso. Como Santos Dumont passou a usá-lo, a novidade tornou-se popular instantaneamente.

Certa feita, o príncipe de Mônaco perturbou tanto nosso herói, chegando a construir um monumental hangar para dirigíveis por lá, que ele cedeu e mudou-se para aquele minúsculo principado às margens do Mediterrâneo para uma temporada. Passou a fazer seus vôos pelo mar, e sempre era seguido por uma flotilha de príncipes e lordes, ansiosos pela sua segurança.

E pela honra de poder, quem sabe, resgatar o primeiro homem voador da nossa de uma pane aérea qualquer.

Este criativo e abnegado inventor segui para desenvolver o avião e assim o fez, em público, pela primeira vez na história da Humanidade, em 1905. Os Wright não fizeram nada parecido, mais preocupados com patentes e lucro que com aviação e desenvolvimento da ciência. Foi na fonte de Santos Dumont que Louis Blériot bebeu para resolver os problemas de sua máquina, usada mais tarde para atravessar o Canal da Mancha e entrar para a história ao lado do mestre.

E poucos sabem que a criação mais avassaladora de Santos Dumont não foi o famoso 14-bis, usado em seu célebre vôo público no campo de Bagatelle. Mas sim seu genial “Demoiselle”, modelo espetacular de transporte individual, barato e funcional.

Sabem o que o brasileiro então ilustre fez, ao testar e aprovar seu genial projeto? Tornou suas plantas públicas e gratuitas. Que todos façam Demoiselles e aprimorem o projeto pelo bem da conquista do ar. Não foram poucos os pioneiros que foram à oficina do Pai da Aviação apresentar a ele seus problemas. Jamais saíam sem orientação, e muitas vezes saiam com os recursos para implementar as mudanças.

Enquanto isso os Wright recebiam uma dura carta do exército americano, declarando que fossem plantar batatas com todos os seus segredos. Os americanos usaram a tecnologia de Curtiss para seus primeiros passos na aviação militar.

Santos Dumont. Pai da Aviação. Orgulho do Brasil, da França e de todo o mundo civilizado.

Parabéns!!

Eduardo Vieira

Pai de família, católico, inventor e professor de Física, Matemática e Robótica. Presidente e fundador da ABEP - Associação Brasileira de Pais pela Educação.

Artigos relacionados

Verifique também
Fechar
Botão Voltar ao topo