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O passado dos jornais impressos: memórias

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Foto: Marco Frenette / Arquivo Pessoal

por Marco Frenette

Um dos meus orgulhos da juventude foi ir até a banca do meu bairro para comprar meu jornal preferido, “A Gazeta Mercantil”, e ver meu nome assinando uma matéria de página inteira no diário mais sério e respeitado do país.

Publiquei nesse jornal matérias que iam desde análises do “Cabrião” de Ângelo Agostini até resenhas dos livros de Josué de Castro.

Fui um jovem curioso e autodidata. As bancas da Praça da República, no centro de São Paulo, recebiam jornais da Europa. Num dia, comprava o “Corriere della Sera”, noutro o “Süddeutsche Zeitung” ou “Die Zeit”, ou o “Jornal da Tarde”, cujo design era sensacional.

Também lia o “Notícias Populares”, um jornal sensacionalista com manchetes… sensacionais, a exemplo desta: “Largou a mulher para transar com galo índio”. Embaixo da foto de um galo com ar apalermado, a legenda:

“Eis o galo desonrado”. Era um humor bizarro, e dentro, a verdade: a mera história de uma mulher que deixou um homem viciado em brigas de galo…

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Para mim, ler um jornal era um ritual. Escolhia um agradável e com cadeiras estofadas, pedia uma bebida e folheava as páginas com prazer e admiração. No “Corriere” aprendi a obra de Pier Paolo Pasolini; no “Die Zeit” aprendi sobre a República de Weimar e sobre Peter Handke. Cada dia era uma descoberta.

Mas gostava mesmo era de ler a “Gazeta Mercantil”. Os textos eram impecáveis. Era, realmente, um jornal de gente. Tinha poucas fotos se comparado aos outros jornais. Tinha ilustrações a bico de pena. Tipologia e espaçamentos perfeitos, diagramação lógica e sóbria. Era a resistência do P&B numa época com excesso de cores.

Foi na “Gazeta” que li, pela primeira vez, os nomes de Jean-François Revell e Jean Furet, dois intelectuais que me ensinaram muita coisa; e foi “O Estado de S. Paulo” que me apresentou a Mario Vargas Llosa.

O tempo foi passando, e a imprensa foi sendo dominada pela esquerdista. Um dos primeiros cadernos culturais lacradores de que me lembro foi o “Mais”, da Folha de S. Paulo.

Nesse caderno, tive o desprazer de ler um longo texto, no qual um animal plagiava um ensaio meu Gilberto Freyre, que eu havia publicado noutro veículo um mês antes.

Enfim, coisas do passado.

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Marco Frenette

Jornalista com passagens por dezenas de veículos e coberturas em mais de trinta países. Escritor com oito livros publicados. Conservador, cristão e anticomunista.

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